A vida de Dora: a prosa poética de Juliana dos Santos

30-01-2026

Rooxo, Priscila. (2023). Hackeando o poder; Acrylic on canvas [70 x 50 x 4 cm]. Galeria Francisco Fino, Lisboa.

Dora gostaria de ter viajado mais. Conhecido o Rio de Janeiro, a praia, a violência e o samba do Salgueiro. Ido a um baile funk, ser mulher de traficante, ter marquinha com fita isolante. 

Ao invés disso, engravidou aos dezesseis, casou no cartório e seu parto doeu o diabo, não havia ninguém pra lhe dar à mão. Tudo isso em uma periferia da zona norte de São Paulo. Somente ela e Jorge, o menino à quem deu a luz, batizado com o nome do guerreiro católico, por medo de morrer. 

Desejava ter sido obra de arte, ter um retrato famoso, ter lido tudo que tinha na prateleira da biblioteca do bairro, entendido mais das músicas de Caetano Veloso, sentir honestamente o que era o tal de gozo, mas ao contrário, trocava fraldas de um menino manhoso, queimou as mãos fazendo comida pra um tinhoso, abria as pernas toda noite olhando pra um teto azul descascado, sentindo dor, levava de quatro. 

Dora ansiava em ser estrela, ser famosa, capa de revista, poder dar entrevista, ser deslumbrante, ser bem-vista. Mas, de ofertas de mercado entendia, dava banho no pequeno e de tanto fritar a gosto de Manuel, vivia com cheiro de linguiça. Acendia vela todo dia pro anjo da guarda de Jorge, ô garotinho de má sorte, vivia doente, com tosse, verme, dor de barriga, nada forte. Não sabia se era castigo, pois em seu íntimo, não o achava bonito, não sentia amor por ele, mas sim um vazio. Ser mãe era apenas mais um martírio. 

Outro dia na perfumaria comprou um batom vermelho, se olhou no espelho, gostou do que viu, mas se recusava a mostrar ao mundo, tinha medo. Dora não tinha amizades, assistia a novelas, passava horas sozinha, gostava de fugir da realidade (...)

(...) Cada ano que passava o garoto crescia, tinha mais obrigações, pensava em trabalhar fora, mas enquanto isso, se escondia na revolta, de submeter-se às migalhas de um esposo bosta. Toda vez, Dora caia da escada, escorregava com a sandália, tropeçava limpando a casa, a cara inchada, as mentiras deslavadas. Manuel reclamava de tudo: a comida é ruim, o moleque encarnado, não importava o quão limpou, tudo era imundo.

Cresceu vendo a avó passando por isso, a mãe, as tias, e agora que herdara esse ciclo, tinha ódio, tinha amargura, era penoso, era sacrifício. Ouvia que homem era assim mesmo, mas trazia comida, nada faltava, fazia de tudo, se tinha amante é porque o instinto dele era gigantesco. Honestamente, ela achava bom ele despachar em outra cama, mas se ela não precisasse mais servir-lhe, semana após semana.

Passou mal alguns dias e ainda assim não deixou de cumprir suas tarefas domésticas, mulher não fica doente, dona de casa não pode ter dessa. Ao descobrir que estava buchuda novamente, entrou em conflito, como se tivesse tido um colapso, mais uma vez não, outra criança em seu encalço! Refletiu se fosse uma menina, até que gostaria, mas haveria de ser mais uma, a reviver aquela sina.

Não contou pra Manuel, não foi atrás de médico, quis ela mesma resolver. Tascou boldo, rolou da escada, pulou de cadeira, socou a barriga e nada de sangue descer. Matutou enquanto Jorge distraía-se na TV, podia enfiar uns comprimidos na piriquita, talvez tomar outros. E no mesmo instante, sentiu-se maldita, sentiu-se pecadora, e passado meses, outro bebê chorava em seu colo, seu peito doía e nem sabia, deprimia.

Chorava por horas, esquecia o fogo ligado, não tomava banho, o cabelo ensebado, o elogio do momento era porca, fedorenta e bicho enfeiado. Não saia para a rua, não cuidava das crianças e ele, irritado, disse estar de mudança. Ela bem sabia que era conversa fiada, até parece que ele teria coragem. Naquela noite, não retornou. Estava humilhada. Cansada, checou se as crianças dormiam e estavam acolhidas no cântico do Senhor.

A barriga vazia, cabeça pesada. Passou seu batom vermelho, penteou o cabelo, tomou seus remédios relaxantes, repousou sob o travesseiro. Naquele momento, houve paz.

Rooxo, Priscila. (2022). Dias de Luta I; Acrylic on canvas [70 x 50 x 4 cm]. Galeria Francisco Fino, Lisboa. 

Juliana dos Santos é formada em comunicação social pela Fiam Faam, é produtora cultural e audiovisual, dramaturga e roteirista. Participou de algumas antologias como Além da Terra, Além do Céu, pela editora Chiado Books, em 2019, com o poema Desbrava-me , também publicado em Portugal. Escreve poemas, contos, entre outros. Atualmente é educadora para crianças e adolescentes em vulnerabilidade social, promove oficinas de escrita criativa e estuda roteiro pelo Senac

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