A força autêntica da linguagem que grita
Resenha: Partida ao Cais (Urutau, 2025), novo livro da Carla Mulhaus
Lembro do vento fresco que soprava neste dia. Uma mesa de madeira de um bar escondido de Óbidos deve ter lhe lembrado a mesa talhada do café de Venezza. Tocava-nos a brisa do atlântico vinda da Foz do Arelho. Os dias se apontavam para maus dias, e a vulnerabilidade estava evidente. Três taças de vinho, ou quatro, e conversas assombrosas no meio da noite; temas aterrorizantes como lendas de espíritos e de desemprego, vida após a morte e imigração, velas para santos e para o nada, maternidade. Cruzando a linha do risco, impregnei o largo inteiro da mais profunda desesperança de quem, só por uma noite, pouco crê nas sutilezas salvadoras as quais passou a vida a apregoar. Não somos Frida nem Breton, não comíamos coisas estranhas, mas neste dia meio fatídico, meio invisível, foi que se insurgiu o chamado deste texto.
Como é bem previsível dos desesperançosos das sutilezas, o chamado foi devidamente recusado. Mas a sutileza é coisa que se ainda existe é mesmo por teimosia e persistência. De Óbidos ao Norte na manhã seguinte, primeiro estivemos perdidas e depois seguimos juntas em Comboio, ela, a sutileza, fazia-me companhia, muito mais do que eu a ela. Despedimo-nos carinhosamente, mas continuaram a chegar mensagens criptografadas afirmando de este texto era meu.
Olhando agora, concluo que esta é a história de uma desesperança crente e de uma sutileza cética e agnóstica, a história deste texto de posfácio. Talvez porque a desesperança precisa de qualquer coisa a mais para existir, e a sutileza é autônoma, tem a ela mesma, e é uma grandessíssima habitué de consertar feiticeiras más. Foi assim que, sem noção nenhuma do ridículo, a autora de Partida ao Cais finalmente convenceu a esta que vos escreve a fazê-lo.
Parece não fazer diferença, mas faz. Porque eu duvidava daquilo que Carla já sabia, e deixo aqui minha mea culpa, por declinar quando é inescapável o poder que a sutileza tem sobre a desesperança. Por isto, junto-me agora ao coro das mulheres com algo partido que conhecem o mar apenas depois de flotar muito sobre pântanos para dizer-lhes que o Cais de Carla é uma mãe implodindo o mito das origens. E este livro está de partida ao cais porque necessita a ele voltar: a borboleta que quer voltar ao casulo para cumprir o seu resguardo.
Mas isto se faz? Como desemborboletar-se depois de já se ter emborboletado? Filhas querem voltar ao cais, mas enquanto filhas-mães sabemos que âncora é um lugar que não existe depois de parir alguém.
É assim que Partida ao Cais se configura; uma prosa poética que desliza neste impercetível fio magnético que vincula a linhagem nascida de um útero. As memórias de uma mãe encantada gritam pelas águas venezzianas até grudar como gruda-se uma fotografia antiga no vidro de um porta-retrato aposentado, que está inteiro, mas já não fica de pé (p.11). Como esta impressão eterna, a mãe encantada verte-se em camada de corpo, em epiderme por vezes cinza como o cinza encardido dos pombos, por vezes branca como pó de ossos triturados, ou restos velas acesas por dentro.
É, Carla sabe afundar, e como Venezza, afunda com elegância quimérica.
Sobe-se nas roupas emborrachadas da dor para inundar-se na própria morte distópica.
A mãe é a pele, e suas memórias são capazes de tudo embalsamar, mesmo as suas palavras, que por hora registam um luto vivente em espetáculo taxiderme sobreposto à parede do café mais antigo da Europa. E enquanto lá está [sendo parede mesa de madeira talhada violino cadeira café água com gás e dez euros], enquanto de lá nunca foi capaz de sair, observa, do alto, sua mãe. E congela no tempo o tempo de ser filha, tal e qual a foto conectada para sempre ao vidro de um ex-porta-retratos.
Quem já leu Carla Mulhaus sabe que a sua voz poética tem força autêntica, que grita enquanto sussurra, e Partida ao Cais é o pináculo da escrita do sensível. Não está interessada em malabarismos retóricos, não segue escolas, é leal ao que veio. Não preocupa-se em parecer comprometida, menos ainda preocupa-se em não parece-lo. Apenas desorienta-se a cada construção, fiel a pele e ao corpo que deixa livre para escrever, tal e qual Kati Horna e Remédios Varo, ambas fantasiadas de esfinge e kimera enquanto tropeçam nas caudas e riem no criar de si mesmas; a doce comprovação de uma justa despedida, tão justa que já não há de ser preciso pedir nada a mais do que aquilo que já está a ser levado.
Por tudo isto é que este lugar habitado entre a vida e a morte é uma das mais bonitas riquezas de Partida ao Cais. A voz está evidentemente morta, como está morta a sua mãe, nasceram juntas e juntas encantaram-se, mãe e filha. Todas as que aparecem nos espaços vazios entre a narração e a sua mãe são suas representações polifónicas, tenores, sopranos, contraltos. O que sobra da voz narrativa neste mundo é que, por ter sabido ser filha, e por ser mais filha do que mãe, será surpreendentemente a mãe que necessitará, por ventura, a sua filha. Despede-se, portanto e finalmente. Para de pedir porque sabe que terá de dar, mas no fundo, está prostrada no chão, enterrada e mais viva do que nunca.
Mas então, com tantos caminhos possíveis, porque declinar deste texto? Este chamado foi mesmo na altura em que minha mãe tinha recebido um diagnóstico de câncer de pulmão do outro lado deste Atlântico que nos beijou a brisa naquele dia, tomando copos de vinho em uma mesa de madeira de Óbidos. Tudo era ainda nebuloso, sem detalhes, havia dúvidas, exames agendados, nenhuma resposta, como se todo tabaco que ela fumou agora esfumaçassem o futuro. Não podia sequer ir vê-la por questões objetivas, por questões além do desejo. A ruína de nunca mais vê-la antecipou meu luto. Foi aí que neblina fétida a alcatrão exalava dos pulmões, e impedia-me de enxergar a sutileza. Não me culpo por isto, já não me culpo mais por deixar doer.
Não sabia sequer minha mãe morreria muito em breve, mas recebi o chamado para escrever sobre este livro, um livro escrito sob os bálsamos de uma mãe. Mesmo após o aceite posto, deixei o arquivo aberto, mas evitava-o diariamente por medo de inundar sem a elegância pedida para ocasião.
Mas como uma surpresa imensa e doce, Partida ao Cais pôs não a mim, mas ao meu medo do luto submerso. Intrigou-me a mãe encantada que costumava vestir roupas pelo avesso, assim como eu, e que deixava pelos trilhos as guimbas de cigarro, uma para cada ausência de vida, assim como a minha mãe; a história de nós, as duas, que só por sorte ainda não aconteceu.
É janeiro, está frio em Portugal e quente no Recife. Celebro que minha mãe reclamou do calor, isso porque ainda vive, com amor e pulmões de aço, e sendo como são as mães; […] a poesia que cheirava a cigarro. Seus pulmões choraram", era o que cantava Beth usando o poder das sereias (p.68). Mas sei, ainda mais agora do que antes, que a vida está para a morte como o mar está para o pântano, e que somos serezinhos asmáticos, todas nós, míticas Vashti Setebestas[1] revivendo secularmente o seu ato desesperado de tomar o ar de volta enquanto se transfigura nas mulheres do mundo. Já a mãe encantada de Partida ao Cais é epiderme, parede, roupas do avesso que desvelam nosso outro lado, o mais amassado, o menos engomado, o real.
Toda esta história faz-me lembrar a encruzilhada de Leonor e Beth, entre aquela que parte na frente ou a que se atrasa para desfrutar de estar sozinha. Sei que Carla compreenderia caso não lhe desse este texto. Mas ela sempre soube que eu precisava largar o remo pesado e grande demais para uma filha, manobrar um pouco nas curvas; mas principalmente da gigantesca rasgadura que provocam as suas palavras embalsamadas com a mais sensível ternura do luto, reabrindo um portal para a esperança e para a sutileza, e devolvendo aos olhos todas as faíscas de luz fustigadas de mãe para filha. Parece não fazer diferença, mas faz. E este é o verdadeiro poder deste livro que têm, porque irremissivelmente somos ou seremos o luto de uma filha.
[1] Vashti Setebestas é a personagem central do poema épico Asma, da escritora Adelaide Ivánova (Nóz, 2024).
Por Manuella Bezerra de Melo

