Resenha: quantos tempos habitam um espaço? 

11-08-2025

Pequeno ensaio-resenha sobre "breve ato de descascar laranjas", por Fabiano Oliveira*

Ao terminar de passar por páginas de azul, ainda com um azul na vista, resolvo organizar algumas ideias azuis, que acabam saindo em letras ainda azuis; um azulado insistente atravessa uma conversa no Instagram e já vai longe demais. Digo que vou aproveitar e levar a cor para outro espaço. Esse azul, já esmaecido, arroxeado pelos meus acréscimos aqui, se lê, mais ou menos, assim:

"breve ato de descascar laranjas" (Macabéa / 7Letras, 2023), de Bianca Monteiro Garcia, nos leva a pensar sobre a múltipla identidade, experiências e significações de lugares íntimos; para isso, privilegia a marcação espacial sobre a temporal. Percebemos os espaços delimitados e permanentes – na divisão da obra, nas descrições dos poemas –, enquanto o tempo neles se alterna. A imagem da casa que fica quando alguém se vai ilustra bem esse movimento: "a mesa dos aniversários / a escada das fotos comemorativas / a piscina de plástico no terraço / o hábito dos relógios". As mudanças impelidas pelas perdas são contadas por meio desse contato de diferentes tempos habitando o mesmo lugar; descascamos laranjas em 2004 e ficamos parados no espaço, fazendo a mesma ação 15 anos adiante.

Sendo uma obra que fala sobre perdas – familiares e de si em alguma medida –, a expectativa seria a de se privilegiar o tempo. Mas a escolha pelo intermédio do espaço reforça a sensação daquilo que não é mais, daquilo que, por causa da perda, é outro ou está deslocado. Me lembro, num primeiro momento, da proposta do historiador alemão Reinhart Koselleck de teorizar o tempo como estratos geológicos, os estratos do tempo. Mas em breve ato... é diferente. Não se trata de considerar o tempo com suas diferentes durações e interseções, mas sim da coabitação entre passados e presente, um contato de momentos múltiplos. Assim, um lírio-de-natal dado de presente pelo avô à avó se configura como um início mítico de parte da família e é alçado a representação dos laços afetivos: "e agachado roubou uma muda / entregou à minha avó / presente de reconciliação: / a árvore genealógica da família".

Penso nisso depois de descobrir o que é a descontinuidade de Mohorovicic, a fronteira entre a crosta e o manto da Terra e o nome da primeira parte do livro.

Paro, olho para o céu-azul-limpíssimo-inabalável. Abaixo os olhos, volto ao texto.

É curioso a obra começar justamente com esse espaço intersticial, uma zona de separação instável, com diferentes distâncias que dividem os estratos, quase um não lugar. Penso que talvez alguns acontecimentos muito relevantes sejam uma descontinuidade sem existência positiva, são apenas a transição em toda a sua negatividade; não são propriamente um espaço, mas uma zona que nos joga de um tempo, de um estado, para outro.

Levanto a vista, olho para o céu-outro-agora-lavanda.

Seria possível perceber o ponto em que o azul deixou de sê-lo? E delimitar a transição em si? Quando "o céu laranja tinge seu corpo ciano-lilás" como perceber o exato ponto de contato entre as cores? Existe alguma linha demarcando a fronteira entre a vida e a morte? Se sim, poderíamos vê-la? Essa é uma questão impossível, assim como é habitar a morte, dada a sua total incomensurabilidade – afinal, como pensar a negação de existir? Mas a morte – pelos seus efeitos afetivos e mudanças na vida prática – nos impulsiona. Em breve ato…, a figura do pai é esse elemento que nos impele pelos tempos: "eu vivi / e cresci / a ponto de ver meu pai taciturno / resguardado numa canoa / inerte entre o passado e o passado / logo ali perto de casa"; ou ainda: "perto de ti eu era eterna / criança". Talvez, reste mesmo passear pelos tempos nos espaços de maneira indeterminada, aproveitar o que neles se oferece sem nenhuma garantia, a não ser a visita: "rebobino os dias até que chegue ao magma / ao casulo ao núcleo / rebobinar rebobinar um pai adormecido / um vulcão inativo / dar replay".

*O autor deste ensaio, Fabiano Oliveira (Nova Iguaçu, RJ, 1991), é jornalista e mestre em Ciências Sociais pelo PPCIS - Uerj. Atualmente cursa doutorado no mesmo programa. Publicou o livro Impressões da beirada (M.inimalismos, 2024), além de poemas na revista Ruído Manifesto.


Bianca Monteiro Garcia venceu o Premio Jabuti com "Breve Ato de Descascar Laranjas"
Bianca Monteiro Garcia venceu o Premio Jabuti com "Breve Ato de Descascar Laranjas"

Bianca Monteiro Garcia é editora da Macabéa Edições e da Taioba Publicações, formada em Letras e especialista em Literatura Brasileira pela UERJ. É também revisora e professora. Coministrou a oficina "Literatura e loucura: Maura Lopes Cançado, Lima Barreto e Stella do Patrocínio", na Coart/UERJ. Pesquisadora de poesia contemporânea escrita por mulheres, tem poemas publicados em revistas e plataformas digitais. breve ato de descascar laranjas é seu livro de estreia, publicado em parceria de coedição Macabéa + 7letras. 

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