As gigantes minúcias em quatro poemas de Simão Pedro

Amaral, Maria Emília. (2008). Retrato com cigarro. Categorias Abstrata; acrilica e pastel sobre tela. Art Majeur.
El remordimiento
Perguntas-me porque decoro desenfreadamente poemas,
Porque não tiro os meus olhos
Dos teus tão verdes.
O Borges ficou cego
E disse que o seu maior pecado durante a vida
Foi não ter sido feliz.
Aprendamos com os erros, antes que seja tarde.
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Definhar em Portugal
Há sempre uma solução
Para vivermos no país que escolhemos.
Partilhamos o mesmo cigarro entre os dois.
O amor também sobrevive a crises económicas.
Começas e acabas o cigarro,
Eu vou fumando pelo meio.
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Message in a bottle
What will I do? What
will I do without exile, and a long night
that stares at the water? -Mahmoud Darwish
Nas linhas do metropolitano está escrito:
"Não atravessar, perigo de morte".
Queremos nascer de novo no lado de lá,
Cruzar terra e mar com fénix clamando no peito.
O que pode separar um Homem vivo de um Homem vivo?
Embora não te apercebas no dia manso e sereno,
A morte persegue-nos a todos.
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Fragmentos
Por entre tantas receitas para cozinhar o arroz,
E outras tantas para fazer o bolo de chocolate,
Escolheste aquelas de quem te amou.
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Simão Pedro, nome bíblico em temperamento endiabrado, produto do metamorfismo do granito transmontano, com pouco a apresentar (para já). O que melhor o define é um verso do saudoso António Variações: "E eu sou melhor que nada". Entre o Benfica e a literatura, vive, muito a gosto.
