Três poemas de Carol Braga

Marques, Ronaldo. (2021) Cobra coral verdadeira. Óleo sobre tela; Arttere.
eu sei por que o pássaro pousa no fio de alta tensão
desejo a tranquilidade do pássaro
que repousa
pousando num emaranhado de fios de alta tensão
desejo a tranquilidade dos fios
espichando-se dum lado a outro duma
encruzilhada macho
distendendo enquanto
carros, motos, ambulâncias, bicicletas, semáforos
cruzam-se
desejo a tranquilidade de quem repousa
em cima dos fios de alta tensão
persigo a humilde liberdade do pássaro
que sabe exatamente onde pousar
para não ser eletrocutado por um fio ordinario
numa encruzilhada qualquer
desejo conseguir calcular meus piados
e pousar com minhas penas e
meus minúsculos músculos
em contração
em estado de alerta
e livre
"Viva a liberdade dos pássaros da capital!"
ousaríamos sussurrar juntas
para eles não nos ouvirem.
escalpelar a si
os cabelos pretos e longos dela
agarraram no motor do barco
como um polvo
a intensa rotação do motor no próprio eixo
produzia uma sucção rastejante
de qualquer objeto próximo
o escalpelamento de antônia da purificação
aconteceu quando a menina voltava da escola
depois da aula de literatura
naquele dia, leu um poema de uma poeta caboverdiana
qual era mesmo o nome da poeta?
entre purificação e a poeta de Cabo Verde só uma coisa em comum:
nascidas e criadas arrodeadas d'água
escalpe é uma lesão traumática
o trauma que engoliu o couro
que prendeu o cabelo, que deixou exposto o sangue azul da menina purificação
a força da tensão e a firme aderência do cabelo à pele
arrancaram-lhe o couro cabeludo até
a grande quantidade de veias estouradas gerar
um sangramento intenso
à vítima,
a tração foi particularmente rápida
as médicas da santa casa de misericórdia de belém do pará me explicaram que
quando todo o cabelo é tracionado ao mesmo tempo
a pele se rompe inicialmente nas sobrancelhas e depois
acima e em torno das orelhas
ou através delas
quando o motor do barco a engoliu
houve exposição da calota craniana
da cabeça de purificação,
surgiu
um molusco
oito braços moles
agarrados como ventosas no motor do barco
carnívoros
devorando seus próprios três corações
qual era mesmo o nome da poeta caboverdiana?
úmido,
o motor do barco silenciou
o tempo escorria por toda a pele do corpo de purificação.
língua de cobra
minha língua
uma cobra coral
das que não se sabe se
verdadeira ou falsa
porque
mes.ti.ça

carol braga é poeta do Recife-PE (1992). Autora de "minha raiva com uma poesia que só piora" (Urutau, 2021), obra semi finalista do prêmio Oceanos de literatura 2022. Campeã Nacional do Festival de Poesia e Performance Portugal.SLAM! 2021. Co-autora de "Insulto a Decência" (Hecatombe, 2022) e da dramaturgia de Luanda-Recife (2022). Fundadora do Slam das Minas Coimbra, tem textos publicados em zines, revistas e antologias em Cabo Verde, Brasil e Portugal. Atualmente, é realizadora do podcast "Baião de Duas: a boca do estômago" - onde se ouve poesia transatlântica de poetas mulheres falantes de português. https://caroltbraga.journoportfolio.com/
