Três poemas impróprios para consumo de Luciana Henrique
Vista da exposição Feixe de Luz: escultura projetada, cinema exposto no Centro de Arte Oliva, com Les films de Brancusi, 1923-1939 [Col. Centro Pompidou, Paris / Musée National d'Art Moderne /Centre de Création Industrielle]. Fotografia: Dinis Santos. Fonte: https://contemporanea.pt/

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Para consumo imediato
Todos nós agimos como se
aguardássemos ansiosamente a morte
no dia trinta e um de dezembro.
A casa tem de estar limpa,
os itens da lista, riscados,
há mais promessas
e quase nenhuma ofensa aos deuses,
e não se veste roupa usada
às vinte e três e cinquenta e nove.
Houve um tempo em que efetivamente
morríamos
desavisados, sem ar,
antes do dia trinta e um.
É talvez por isso
que no último dia do ano
deixo de lavar o último copo sujo
sobre a pia,
que esqueço de recolher o pó do chão
e que abandono o poema entalado
na garganta.
Enquanto observo as mangas
apodrecerem suavemente
sobre o concreto,
acolho a ilusão contrafóbica
de que não vou morrer.
E por alguns instantes,
tento também ser
imprópria para o consumo.
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Íris
Aquela flor
eram três pétalas que olhavam para cima,
três pétalas que olhavam
para baixo.
E eu, da divisa de quem
eu era — metade minha
olhando pra dentro,
metade fora olhava pra ela,
já se perdendo o caminho da vista,
porque não bastam
os cinco sentidos
que vão se turvando entre
o tempo e o trabalho,
não bastam os mitos
da ideologia, más ficções urdidas
que nos cegam.
Vibrando como a pele da água,
lilaz e aguda,
a flor me varava
e ali
da divisa de onde eu era,
meio suspensa em reflexo infinito,
olhava a flor: e a flor me olhava.
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Em todos os becos da casa
Em todos os becos da casa
o que sobra é a falta
no café já morno,
na comida engolida
sem sentir,
na infiltração conformada.
Não há com que tapar
os buracos
que já despontam na fachada
de todas as cores e formatos.
Um edifício feito
de erosões
e cacos.
São inúteis os avisos
de não pisar a grama
de evitar estacionar carros.
São ridículas as desculpas
pelo transtorno,
pelo piso molhado
quando a regra é o risco
e a norma é a queda.
Mas entre o que racha as paredes
e afofa os ladrilhos
há buracos que se comunicam
e atravessam os andares.
Buracos vivos que
entre ruína e ruído
deixam escapar a luz do sol,
o som de um orgasmo rouco,
ou de um bem-te-vi gago.
Nos becos da casa
o que me falha
eu falo
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Luciana Henrique é poeta, doutora em Literatura brasileira pela Universidade de Brasília e professora de Literatura no Instituto Federal de Brasília. Em 2021 publicou o livro de poemas Quase nada, pela Editora Primata.
