Três poemas impróprios para consumo de Luciana Henrique

05-01-2026

Vista da exposição Feixe de Luz: escultura projetada, cinema exposto no Centro de Arte Oliva, com Les films de Brancusi, 1923-1939 [Col. Centro Pompidou, Paris / Musée National d'Art Moderne /Centre de Création Industrielle]. Fotografia: Dinis Santos. Fonte: https://contemporanea.pt/

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Para consumo imediato

Todos nós agimos como se

aguardássemos ansiosamente a morte

no dia trinta e um de dezembro.

A casa tem de estar limpa,

os itens da lista, riscados,

há mais promessas

e quase nenhuma ofensa aos deuses,

e não se veste roupa usada

às vinte e três e cinquenta e nove.

Houve um tempo em que efetivamente

morríamos

desavisados, sem ar,

antes do dia trinta e um.

É talvez por isso

que no último dia do ano

deixo de lavar o último copo sujo

sobre a pia,

que esqueço de recolher o pó do chão

e que abandono o poema entalado

na garganta.

Enquanto observo as mangas

apodrecerem suavemente

sobre o concreto,

acolho a ilusão contrafóbica

de que não vou morrer.


E por alguns instantes,

tento também ser

imprópria para o consumo.


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Íris

Aquela flor

eram três pétalas que olhavam para cima,

três pétalas que olhavam

para baixo.

E eu, da divisa de quem

eu era — metade minha

olhando pra dentro,

metade fora olhava pra ela,

já se perdendo o caminho da vista,

porque não bastam

os cinco sentidos

que vão se turvando entre

o tempo e o trabalho,

não bastam os mitos

da ideologia, más ficções urdidas

que nos cegam.

Vibrando como a pele da água,

lilaz e aguda,

a flor me varava

e ali

da divisa de onde eu era,

meio suspensa em reflexo infinito,

olhava a flor: e a flor me olhava.


#
































Em todos os becos da casa

Em todos os becos da casa

o que sobra é a falta

no café já morno,

na comida engolida

sem sentir,

na infiltração conformada.

Não há com que tapar

os buracos

que já despontam na fachada

de todas as cores e formatos.

Um edifício feito

de erosões

e cacos.

São inúteis os avisos

de não pisar a grama

de evitar estacionar carros.

São ridículas as desculpas

pelo transtorno,

pelo piso molhado

quando a regra é o risco

e a norma é a queda.

Mas entre o que racha as paredes

e afofa os ladrilhos

há buracos que se comunicam

e atravessam os andares.

Buracos vivos que

entre ruína e ruído

deixam escapar a luz do sol,

o som de um orgasmo rouco,

ou de um bem-te-vi gago.


Nos becos da casa

o que me falha

eu falo

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Luciana Henrique é poeta, doutora em Literatura brasileira pela Universidade de Brasília e professora de Literatura no Instituto Federal de Brasília. Em 2021 publicou o livro de poemas Quase nada, pela Editora Primata.

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