"Passiva": Um microconto de André Osório

14-10-2025

Abstração Vegetal, 1961. Lula Cardoso Ayres. óleo sobre tela, c.i.d. 

                     Qualquer direcção, qualquer caminho, escreveu Benedita, é a entrada num nó maior, mais intrincado, mais subversivamente intrincado. A floresta tece as linhas rectas do rosto, as arestas do quarto de onde observas as sombras dos ramos contra as janelas. Nunca uma noite tão insone vigiou a passagem das horas, desperdiçadas num tempo que nunca se viveu. Benedita pensa, pequena, desorientada.

                     Segue o fio, segue-o até ao final, sacia a tua sede de tristeza. Algo te impede de ir mais longe, algo te impede de ficar no mesmo lugar. Falta de amor talvez. Falta de coragem, eu sei. Quando tudo está morto nada avança.

                     O seu corpo é uma pedra no rio. Rio-me de tudo isto.




André Osório nasceu em 1998. É doutorando em Teoria da Literatura pela Universidade de Lisboa. Tem poesia publicada em várias revistas literárias e antologias poéticas, entre as quais a lusófona A Boca no Ouvido de Alguém (2023) e a mediterrânica Voix Vives (2025). É co-fundador da revista Lote. Publicou Observação da Gravidade (Guerra e Paz, 2020), que foi finalista do Prémio Literário Glória de Sant'Anna (2021) e semifinalista do Prémio Oceanos (2021). Em 2022 foi vencedor da Bolsa de Criação Literária da DGLAB, de onde resultou o seu segundo livro de poesia Sala de Operações (2024).

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